3 de setembro de 2026 por Georges Ryoki

No dia em que faria 82 anos, a história viva de um joseense entre livros, fé e generosidade

Seu Josué SJC Parque

Nascido em São José dos Campos em 3 de setembro de 1944, Josué dos Santos construiu uma vida marcada pela leitura, pelo trabalho, pela fé e por uma generosidade exercida no cotidiano. Neste aniversário, sua história permanece nas pessoas que ajudou a formar e nos gestos que continuam circulando pela cidade.

Hoje, 3 de setembro, Josué dos Santos completaria 82 anos.

Durante boa parte da vida, a data pertenceu à família. Era tempo de abraço, conversa, bolo, fotografia, lembranças acrescentadas a outras lembranças. Agora, o aniversário chega poucos meses depois de sua despedida, em 8 de julho de 2026, e revela uma dimensão que o calendário costuma guardar para depois: aquilo que uma pessoa deixa dentro das outras.

Seu Josué viveu 81 anos. Quase todos ligados a São José dos Campos.

Foi aqui que nasceu, trabalhou, criou os filhos, viu crescer os netos, participou da igreja, formou amizades e construiu uma relação persistente com os livros. Também foi aqui que se tornou, para muita gente próxima, uma espécie de referência silenciosa.

Ele gostava de saber. E gostava ainda mais de ver alguém aprender.

Uma vida inteira ligada a São José dos Campos

Josué nasceu em 3 de setembro de 1944, filho de Joana Maria de Jesus, empresária do ramo de lavanderia, e de Valêncio Manoel dos Santos, lavrador.

Passou a infância e parte da juventude na região de Santana, nas proximidades da Casa do Jovem. Naquele tempo, a paisagem ainda guardava traços rurais e um ritmo bastante diferente da cidade que São José se tornaria nas décadas seguintes.

Mais tarde, estabeleceu-se no Jardim Satélite, na Zona Sul.

Sua trajetória acompanhou a transformação do município sem romper o vínculo com ele. O crescimento de São José também pode ser percebido por meio de vidas assim, construídas ao longo de décadas dentro do mesmo território, em bairros que mudaram de aparência enquanto algumas relações permaneceram firmes.

Ao lado de Maria Helena dos Santos, Josué formou uma família numerosa. Foram nove filhos, 16 netos e quatro bisnetos.

Os números impressionam. A convivência explica melhor.

Livros, leitura e incentivo aos estudos

Dentro da família, Seu Josué recebeu apelidos que se tornaram quase uma assinatura afetiva.

Era chamado de “enciclopédia ambulante”. Também virou “Enciclopédia Barsa”.

A comparação nascia de uma memória incomum, do repertório acumulado e da curiosidade que conservou ao longo dos anos. Josué lia com frequência, guardava informações, conectava assuntos e gostava de conversar sobre aquilo que aprendia.

Os livros faziam parte da casa.

Durante muitos anos, foi assinante do Círculo do Livro e da revista Seleções. Entre filhos e netos, incentivava o contato com títulos da Coleção Vaga-Lume e com a Folhinha de S.Paulo. O hábito de ler era apresentado de maneira simples, quase doméstica, como algo que deveria acompanhar uma pessoa desde cedo.

Esse talvez seja um dos aspectos mais reveladores de sua trajetória.

Para Josué, conhecimento possuía utilidade humana.

Ele acreditava no estudo como caminho de formação e ajudou familiares e pessoas da comunidade a avançarem academicamente. Em algumas histórias de vida, essa ajuda aparece como dinheiro, oportunidade ou orientação. Em outras, como insistência. Alguém dizendo que vale a pena continuar.

Esse tipo de influência costuma agir em silêncio. Anos depois, reaparece nas escolhas, nas conquistas e na maneira como alguém passa a enxergar o próprio caminho.

Décadas de trabalho na General Motors

A vida profissional de Josué foi construída na General Motors, onde trabalhou como industriário até a aposentadoria.

A família guarda desse período a memória de um homem inteligente, competente, responsável e assíduo. Há uma coerência discreta entre o trabalhador e o leitor.

A fábrica exigia disciplina. O estudo também. Construir uma família extensa exigia presença. A participação comunitária, da mesma forma. A constância atravessou esses diferentes espaços e parece ter se tornado uma das marcas mais profundas de seu modo de viver.

Seu Josué confiava naquilo que se faz muitas vezes. Levantar, trabalhar, cumprir responsabilidades, voltar para casa, ler, orientar, participar, ajudar.

Vistas isoladamente, essas ações parecem pequenas. Quando atravessam uma vida inteira, formam caráter.

A fé que orientava seus gestos

A religião ocupou um lugar central em sua caminhada.

Josué participou da Igreja Cristã Evangélica Central e, posteriormente, da Igreja Presbiteriana do Jardim Augusta, onde integrou o presbitério e colaborou com a comunidade.

Entre as passagens bíblicas, mantinha especial proximidade com Josué 1:9.

O versículo fala de força, coragem, perseverança e confiança na presença de Deus. Para quem conviveu com ele, essas palavras pareciam combinar com a forma como atravessava dificuldades e responsabilidades.

Sua espiritualidade possuía consequência concreta.

A fé aparecia na disposição em ajudar, no compromisso com a família, no incentivo aos estudos e na participação comunitária. Seu senso de justiça também ficou preservado entre as características lembradas por quem esteve próximo.

Ele tinha uma compreensão bastante prática da generosidade.

Aquilo que pudesse servir a alguém deveria encontrar utilidade.

Um gesto que continuou circulando pela cidade

Depois de sua despedida, um gesto da família levou essa história para além de casa e a colocou em circulação por São José dos Campos.

Uma cama hospitalar ligada à família de Josué passou a integrar um sistema de empréstimo solidário mantido pela Igreja São Peregrino, em São José dos Campos.

O equipamento segue de casa em casa conforme a necessidade.

Em um desses percursos, chegou ao escritor Ryoki Inoue, que se estabeleceu recentemente na cidade cercado pelos cuidados da família.

A história da cama ganhou repercussão porque conecta pessoas que sequer precisavam se conhecer.

Para compreender Seu Josué, porém, interessa sobretudo aquilo que o episódio revela.

Um objeto utilizado dentro de uma família saiu dali e encontrou outra. Depois poderá seguir novamente.

É difícil imaginar metáfora mais adequada para um homem que passou décadas tentando fazer o conhecimento, a oportunidade e a ajuda circularem.

O que permanece de uma vida

Hoje, 3 de setembro, Seu Josué faria 82 anos.

A data chega com um significado diferente para a família. Reúne décadas de convivência, ensinamentos, hábitos e pequenos gestos que, aos poucos, passaram a fazer parte da vida de quem cresceu ao seu redor.

Há influências que o tempo torna mais nítidas. Certos gestos deixam de pertencer ao momento em que aconteceram e passam a existir em quem os recebeu. Com Josué, isso aparece na atenção dedicada aos estudos dos mais jovens, no prazer de conversar sobre aquilo que aprendia, na seriedade com que assumia responsabilidades e na convicção de que conhecimento e caráter deveriam caminhar juntos.

Foi nessa escala cotidiana que deixou algumas de suas marcas mais profundas. Um conselho oferecido na hora certa, o apoio para continuar uma formação, uma conversa capaz de despertar curiosidade, a disposição de ajudar quando percebia que alguém precisava.

Seus nove filhos, 16 netos e quatro bisnetos guardam partes diferentes dessa história. Cada geração conheceu um Josué particular e conserva dele alguma coisa que atravessou a convivência: uma ideia, um hábito, uma exigência, um gesto de cuidado, uma maneira de compreender o estudo e a responsabilidade.

Essa memória alcança também amigos, antigos colegas de trabalho, pessoas das comunidades religiosas e aqueles que, em algum momento, encontraram nele incentivo ou apoio.

Uma vida assim permanece de forma discreta. Continua nas escolhas que ajudou a formar, nos valores transmitidos dentro de casa e naquilo que outras pessoas aprenderam a levar adiante.

Neste 3 de setembro, lembrar Seu Josué é reconhecer que parte de uma vida continua existindo naquilo que ela ensinou aos outros a preservar.

A família também deseja preservar publicamente sua ligação com São José dos Campos por meio da denominação de uma via municipal com seu nome.

Antes de qualquer placa, porém, existe uma homenagem que já está acontecendo.

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Ela aparece quando alguém abre um livro e se lembra de quem ensinou a gostar de ler.

Quando uma pessoa olha para a própria formação e reconhece quem lhe ofereceu apoio.

Quando filhos e netos repetem histórias que ouviram dezenas de vezes e, ainda assim, desejam ouvi-las novamente.

Quando um objeto deixa uma casa e segue pela cidade para servir a outra família.

Neste 3 de setembro, o aniversário de Josué dos Santos pertence a essas pequenas permanências.

Sua ausência ainda é recente. O modo como viveu, porém, continua encontrando caminhos para chegar aos outros.


Fonte e Leitura Completa: Jornalismo Colaborativo