Carlos Solrac e a imagem forjada no tempo

Carlos Solrac e a imagem forjada no tempo

Matéria originalmente publicada no JornalismoColaborativo.com

Da infância com uma Kodak levada nos passeios da família à fotografia profissional, da polícia científica às exposições autorais, do esgotamento após o auge à reinvenção na cutelaria, a trajetória de Carlos Solrac revela a coerência rara de um criador que fez da precisão uma forma de ver, trabalhar e permanecer.

Há vidas que se organizam por etapas. A de Carlos Solrac se organiza por matéria. Primeiro, a luz. Depois, o aço. Entre uma e outro, o que muda é a superfície. O princípio permanece.

Ao longo de décadas, ele aprendeu a olhar antes de agir, a respeitar o tempo do processo, a perseguir equilíbrio, acabamento e presença. Fez isso com a câmera nas mãos, no laboratório da experiência, na disciplina da formação técnica, no rigor da polícia científica, na inquietação de quem sempre buscou linguagem própria. Mais tarde, faria o mesmo diante da forja, do calor, da lâmina e do desenho de uma faca. Em ambos os ofícios, o centro é semelhante: harmonia, detalhe, medida, permanência.

Sua trajetória interessa justamente por fugir da ideia fácil de talento espontâneo. O que ela oferece é outra coisa: o retrato de um homem que construiu o próprio caminho por acúmulo de prática, atenção e reinvenção. Num tempo dominado pela pressa, pela imagem instantânea e pelo consumo rápido das coisas, Carlos carrega uma lógica quase oposta. Seu trabalho pede decantação. Pede mão firme. Pede tempo suficiente para que a técnica deixe de ser recurso e vire assinatura.

Memória Concreta

A fotografia entrou em sua vida quando ele ainda era menino. A mãe havia comprado uma Kodak quadradinha, dessas que registravam doze poses em negativo 6×6. A máquina acompanhava os passeios da família, e o rito era simples: sair, fotografar, esperar, receber as imagens em papel. Para uma criança, aquilo já bastava como assombro. Havia alguma coisa poderosa no fato de um momento voltar materializado, guardável, transmissível. Antes mesmo de entender a fotografia como linguagem, Carlos a conheceu como permanência.

Foi também em casa que vieram os primeiros ensinamentos. Em algum momento, pediu à mãe para fotografar. Ela deixou, mas ensinou o básico com a seriedade de quem passa adiante uma ferramenta delicada: cuidado com a câmera, atenção ao sol, posição certa de quem fotografa e de quem é fotografado. O gesto parece pequeno, mas ali já havia uma noção que o acompanharia para sempre. Imagem não nasce apenas do impulso. Imagem depende de leitura.

A infância seguiu, e a curiosidade ganhou corpo. Aos dez anos, uma vizinha recebeu do namorado, vindo da Alemanha, uma Rolleiflex. Não sabia operar a máquina. Carlos sabia colocar filme. Foi chamado para ajudar e, diante daquele equipamento, sentiu algo decisivo. Décadas depois, a lembrança ainda tem o peso de um marco. Para o garoto que começava a entender o alcance da fotografia, tocar numa Rolleiflex era entrar em contato com outro patamar de mundo. A fascinação já não vinha só da imagem produzida, mas também da relação entre instrumento, técnica e resultado.

Logo ele passou a fotografar passeios e excursões. Virou o fotógrafo informal de viagens para Aparecida, Bom Jesus de Pirapora, Santos. Aos 14 anos, comprou a primeira máquina própria, uma Kodak simples, de plástico, modesta na construção, suficiente na função. O essencial estava preservado: ele podia continuar fotografando. O interesse já havia ultrapassado o campo da curiosidade juvenil. A fotografia começava a se instalar como forma de expressão.

Disciplina do Olhar

A entrada na vida profissional veio cedo, antes da formação formal. Em 1968, num período em que a fotografia brasileira atravessava a transição do preto e branco para o colorido, Carlos registrou um casamento com os limites técnicos do seu tempo: doze chapas, doze oportunidades, nenhuma folga para erro. As imagens chamaram atenção. Houve convite para que trabalhasse com fotografia. Ele ainda não seguiu por esse caminho de modo imediato, mas a direção já estava lançada.

Vieram então os aniversários, as festas de amigos, os batizados, os casamentos feitos na base da confiança e do improviso. O cenário se repetia: convidavam Carlos para a celebração e lembravam que ele precisaria levar a câmera. Os outros compravam o filme. Ele fazia o resto. Aos poucos, a rede de pedidos foi crescendo, a experiência foi se acumulando, o olhar foi sendo testado em situações reais. A prática o formava.

Ainda assim, alguma coisa o inquietava. Sabia fotografar, tinha clientela, entregava bons resultados, mas sentia falta de formação consistente. Não queria depender apenas da intuição ou da repetição do que funcionava. Queria fundamento. Queria técnica. Queria entender melhor o que fazia. Esse desconforto diz muito sobre sua trajetória. Em vez de acomodar-se no reconhecimento, decidiu submeter o próprio trabalho a um processo mais exigente.

Prestou vestibular para o Senac, disputou vaga, passou e ficou dois anos estudando fotografia. Foi um momento decisivo. O fotógrafo construído na prática encontrou ali uma estrutura mais ampla, capaz de organizar o saber que já trazia e ampliar sua consciência de linguagem. O que antes era essencialmente empírico ganhou método.

Nessa mesma fase, Carlos já integrava a Polícia Militar. Em serviço, começou a fotografar locais de ocorrência e acidentes. Mais tarde, durante o período de formação, surgiu o convite para prestar concurso na Polícia Científica. Ele foi, conseguiu autorização, fez a transição, trabalhou em São Paulo e depois se transferiu para São José dos Campos. Essa passagem ajuda a entender uma parte central da sua identidade profissional. A polícia científica exige rigor, objetividade, enquadramento preciso, responsabilidade documental, atenção extrema ao detalhe. Não há espaço para distração ou excesso. A fotografia ali tem função probatória, e essa lógica aprofunda a disciplina do olhar.

Depois do Topo

Ao chegar a São José, Carlos levou consigo o repertório que havia acumulado e aplicou ao mercado social um padrão de exigência que o diferenciou. Seu trabalho se destacou. A agenda começou a lotar. Em determinado momento, havia reservas com até dois anos de antecedência. O que antes era ambição virou realidade: noivas passaram a consultá-lo antes mesmo de fechar a data do casamento. Durante muito tempo, esse havia sido seu objetivo máximo.

Quando finalmente chegou a ele, veio a fratura.

Carlos conta que, depois de alcançar aquilo que tanto perseguira, ficou sem objetivo e caiu em depressão. A meta cumprida não trouxe repouso. Trouxe vazio. Esse é talvez o ponto mais forte de sua história, porque rompe a narrativa fácil do sucesso como linha de chegada. O auge, aqui, aparece como momento de desorganização interior. Depois de tanto tempo orientado pela ideia de chegar, ele precisou lidar com a ausência súbita de um próximo passo.

Foi dessa crise que nasceu a reinvenção.

Depois de um período longo, resolveu criar algo diferente. Queria tirar a fotografia do cotidiano, afastá-la do registro esperado, conduzi-la a outro território. Produziu então sua primeira mostra de formas, cores e sombras. O trabalho lhe deu uma nova orientação. A fotografia de estúdio passou a ser também espaço de pesquisa, invenção e construção autoral. Durante cerca de quatro anos, mergulhou em exposições e processos criativos. Havia potência estética, havia voz, havia movimento. Faltava retorno financeiro.

Luz como Linguagem

A vida concreta impôs outro ajuste. Carlos voltou ao social, mas sem aceitar a repetição pura e simples. Precisava encontrar um diferencial. Lançou então um desafio a si mesmo: fotografar com luz de cinema. Em vez de seguir os padrões dominantes, passou a trabalhar com iluminação de tungstênio e baixa velocidade, numa aposta rara para o segmento em que atuava. O resultado foi expressivo. Segundo ele, a imensa maioria dos contratos passou a ser fechada justamente por esse tipo de imagem. O recurso virou marca.

Mais uma vez, a trajetória mostra coerência. Carlos nunca pareceu satisfeito em apenas cumprir tarefa. Ele queria imprimir leitura, propor atmosfera, deslocar o trabalho para uma zona em que técnica e sensibilidade se fundissem de modo particular.

A era digital, porém, mudou o jogo. Recursos que antes dependiam de conhecimento específico e coragem operacional passaram a ser reproduzidos com mais facilidade pelos novos equipamentos e por tratamentos imediatos de imagem. Aquilo que o singularizava perdeu parte da exclusividade. Em vez de ressentimento, veio outra busca.

Foi então que aprofundou um caminho ainda mais autoral: o da pintura fotográfica com luz. Percebeu que, usando elementos semelhantes aos dos pintores, combinados à vaselina e à manipulação da luz, poderia criar imagens distintas do fluxo visual comum. Passou a produzir fotografias trabalhadas, atmosféricas, com acento plástico próprio. Fez exposições em diferentes cidades e espaços, do Senac ao metrô, de Sorocaba a Foz do Iguaçu, do Rio de Janeiro a outros circuitos por onde sua pesquisa circulou.

Nesse período, também dava aulas na Academia de Polícia. Havia aí uma espécie de síntese temporária: o profissional que atravessara prática, técnica, mercado e linguagem agora ensinava. Esse ciclo se encerrou quando, aos 70 anos, ouviu que não poderia continuar por ter atingido o limite de idade. Outra fase se fechava. Outra vez seria preciso se refazer.

Outra Temperatura

A cutelaria entrou em sua vida por uma porta quase casual, mas carregada de sentido. Convidado para o aniversário de um amigo, percebeu que já havia dado presentes de toda ordem em outras datas e queria oferecer algo distinto. Em casa, tinha alguns elementos ferrosos. Pegou uma lima, adaptou um forno no fogão a lenha e fez uma faca. Levou a peça para a festa.

A reação foi imediata. O objeto despertou curiosidade, circulou entre os presentes, ganhou atenção. Um chef de cozinha que estava ali perguntou se Carlos faria uma faca para ele. A resposta foi afirmativa. A faca foi feita. Depois dela vieram outras. Os pedidos cresceram, a clientela surgiu, a oficina doméstica ficou pequena por causa do barulho e da sujeira, e foi necessário montar um espaço fora de casa. Assim nasceu outro ofício.

Hoje, Carlos produz facas a partir de projetos específicos, trabalha acabamentos diferenciados e incorpora soluções como banho de diamante quando o cliente deseja. A cutelaria, porém, não aparece em sua história como ruptura brusca. Surge como continuação profunda de um mesmo modo de compreender o fazer.

Ele próprio oferece a chave dessa ligação. Diz que fotografia e cutelaria são parecidas, embora isso possa soar estranho para quem olha de fora. Em ambas, explica, é preciso haver harmonia, detalhe, equilíbrio. Uma faca precisa corresponder ao produto que está sendo criado: deve ser bonita, eficaz, bem resolvida. Com a fotografia, acontece algo semelhante. A imagem também pede composição, medida, coerência interna. Em um caso e no outro, forma e função caminham juntas. O que permanece não é só o objeto final, mas a inteligência que o organizou.

Forma que Dura

Há ainda um ponto mais fundo nessa comparação. Para Carlos, tanto a fotografia quanto a faca pertencem à ordem da permanência. Uma fotografia pode atravessar 50, 100 anos. Uma faca pode durar ainda mais. As duas carregam o poder de trazer o passado para o presente. Quando alguém segura uma imagem antiga, reencontra um tempo. Quando alguém toca uma peça forjada, sobretudo uma peça que remete a tradições mais antigas, também acessa uma memória. A fotografia conserva o instante. A lâmina conserva uma linhagem de gestos, materiais e usos. Em ambos os casos, existe uma forma de continuidade. Viver na peça e viver na fotografia, para ele, são experiências aparentadas.

Essa talvez seja a camada mais bonita de sua trajetória. Carlos não atua apenas na produção de imagens ou de objetos. Atua sobre a duração. Seu trabalho lida com aquilo que resiste ao desaparecimento. A fotografia fixa um momento. A faca atravessa gerações. Ambas retiram algo do puro fluxo e lhe dão corpo, presença, memória.

Por isso sua história tem espessura especial num tempo como o nosso. Em meio à saturação imagética e à cultura do descarte, ela recoloca em cena valores que perderam centralidade, mas seguem fundamentais: atenção, paciência, acabamento, autoria, permanência. Nada em sua trajetória sugere improviso superficial. Tudo remete a processo. Ao esforço repetido de encontrar a forma certa, seja no enquadramento de uma imagem, seja no desenho de uma lâmina.

Carlos Solrac poderia ser apresentado de maneira resumida como fotógrafo e cuteleiro. A definição cabe numa linha, mas diz pouco. O que sua vida revela com mais precisão é outra coisa: a formação longa de um criador que aprendeu a transformar rigor em linguagem. Primeiro pela luz. Depois pelo aço. Sempre pelo trabalho.

No fim, talvez seja esse o traço que melhor o define. Carlos pertence a uma linhagem de gente que não se contenta em produzir. Gente que procura construir. E construir, em seu caso, sempre significou buscar um ponto exato entre beleza, função e permanência.

Acompanhe essas e outras obras de Carlos Solrac no Instagram @solracfoto


Fonte: Entre a luz e o aço – Jornalismo Colaborativo